Ansiedade

Ansiedade, ou “nervosismo”, é uma das queixas mais frequentes nos consultórios, não apenas de neurologistas, psiquiatras e psicólogos, mas de médicos de todas as especialidades, bem como na rotina de todos os profissionais da área de saúde. Mesmo quando esta não é a queixa inicial, em muitos casos os diversos sintomas apresentados acabam sendo correlacionados com a ansiedade ou o “stress”.

Ansiedade ou stress (escrever estresse também é correto, em Português) refere-se a um conjunto amplo de reações do corpo a situações supostamente perigosas, bem como aos sentimentos associados a estas situações. Tal reação tem origem em um mecanismo complexo, desenvolvido ao longo da nossa evolução, que basicamente nos prepara para enfrentar um perigo, seja lutando, seja fugindo. Essa preparação tem sido muito importante para a sobrevivência das espécies animais, incluindo a nossa. Imagine que há dezenas de milhares de anos nossos antepassados precisavam frequentemente fugir ou lutar contra predadores, ou mesmo se esforçar (fisicamente) para conseguir seu alimento.

No período mais recente de nossa história, no entanto, conseguimos desenvolver o que chamamos de civilização, reduzindo drasticamente a probabilidade de sermos atacados por um tigre, por exemplo, e facilitando o acesso da maioria dos humanos a alimentos. Se antes precisávamos correr atrás de nossa comida, hoje é a comida que “corre atrás” de nós (basta pedir pelos aplicativos, diretamente do “smartphone”, onde estivermos)!

A complexidade de nossas mentes, no entanto, faz com que supostos “perigos” de natureza abstrata - como não ter dinheiro para pagar contas, ser rejeitado nos meios sociais ou até mesmo ver a equipe de futebol pela qual torcemos perder o campeonato - sejam percebidos como ameaças tão reais quanto o rugido de um tigre dentes-de-sabre! Passamos, então, a experimentar vários sintomas muito incômodos, às vezes completamente paralisantes. Temos sensações de palpitação, dificuldade para respirar, suor frio, tensão e dores musculares, náuseas, às vezes até a sensação de que estamos diante da morte, além de dificuldade para nos concentrarmos, para falarmos em público, para tomarmos decisões. Nos casos mais graves chegamos a ter ideias delirantes, que podem nos levar a ações que atrapalham imensamente nossa vida cotidiana, como no caso de pessoas com o Transtorno Obsessivo Compulsivo.

Os transtornos que têm como principal manifestação a ansiedade são problemas com origem na mente, ou seja, é a maneira de pensar, sentir e se posicionar diante da realidade que se encontra distorcida, não se tratando de uma falta ou excesso de substâncias químicas no cérebro. Os medicamentos, embora às vezes sejam necessários para diminuir os sintomas, não trazem a cura dos problemas, que precisa ser buscada através de outras formas, como a psicoterapia. É mais ou menos como quando temos um problema em nosso computador: se o problema for do hardware (parte física do computador), a solução passa pela substituição das peças e componentes defeituosos. Mas se o problema estiver no software (programação), para solucionarmos será necessário refazer a programação, ou seja, modificar o conteúdo do que lá está armazenado.

Uma outra forma de entendermos a ansiedade é como preocupação excessiva. Se formos examinar de perto a questão da preocupação, perceberemos que qualquer preocupação é, na verdade, excessiva! Preocupação significa ficar pensando em algo (de ruim) que pode vir a acontecer no futuro (mas que também pode não acontecer), e sentir como se tal evento estivesse realmente acontecendo, ou seja, ficar se "pré-ocupando" com algo que não exige nossa atenção no presente. Dessa maneira, não apenas não se vive plenamente o momento presente, como se pode até mesmo criar uma tendência a acilitar o evento temido, num processo que chamamos de profecia auto-realizável. Pode-se, então, pensar na ansiedade como um deslocamento no tempo, tentando-se viver um futuro incerto, em vez de se viver saudavelmente o presente. Nesse sentido, a ansiedade pode ser considerada como um processo parecido com a depressão, que pode ser vista como um deslocamento para o passado.